Golpe do Falso Advogado: Como Proteger o Escritório e o Cliente em 2026

26 de outubro de 2026 9 min de leitura por Equipe Advoup
Golpe do Falso Advogado: Como Proteger o Escritório e o Cliente em 2026

TL;DR

  • O golpe usa dados verdadeiros do processo. Segundo a OAB/ES, os criminosos acessam informações de ações reais, identificam as partes e abordam a vítima fingindo ser o advogado ou alguém do escritório.
  • O roteiro é sempre o mesmo: a ação “terminou”, há dinheiro a receber e, para liberar, é preciso pagar uma taxa, custa ou depósito antes.
  • A OAB/ES já recebeu mais de 1.300 denúncias e pede aos advogados que avisem os clientes sobre o golpe nos contratos de honorários.
  • Quem protege o cliente é o escritório, antes do golpe. Canal oficial combinado por escrito, regra clara sobre cobrança e atualização periódica do processo tornam a mensagem falsa fácil de reconhecer.
  • Se acontecer: boletim de ocorrência, provas preservadas e comunicação à OAB.

O que é o golpe do falso advogado

O golpe do falso advogado é a fraude em que o criminoso se passa por advogado, ou por alguém do escritório, para convencer o cliente a pagar um valor que não existe. A abordagem costuma chegar por WhatsApp ou outro aplicativo de mensagem: a ação foi concluída, há dinheiro a receber e, para liberar, falta pagar uma taxa.

O assunto voltou ao noticiário nesta segunda-feira (26/10/2026). A Migalhas informou que a OAB do Espírito Santo, depois de receber mais de 1.300 denúncias, intensificou as ações contra a fraude. O dado é da seccional capixaba, e o número é só o que ela recebeu; não dá para extrapolá-lo para o país.

O que torna o golpe perigoso para quem advoga é um detalhe que a própria OAB/ES destaca: ele usa informações verdadeiras. Os criminosos acessam dados de processos judiciais, identificam as partes e entram em contato com a vítima, às vezes com a foto do profissional e com informações reais sobre o andamento da ação. Para o cliente, uma mensagem que cita o número do processo, o nome da parte contrária e a fase em que o caso está parece vir do escritório. Nas palavras do secretário-geral da seccional, citadas pela Migalhas, a existência de um processo verdadeiro não significa que a cobrança seja legítima.

Como o golpe funciona, passo a passo

Pela descrição da OAB/ES na matéria, o roteiro tem cinco etapas:

  1. Coleta de dados. O golpista obtém informações de um processo real: partes e andamento.
  2. Contato. Ele procura a vítima, geralmente por aplicativo de mensagem, como advogado ou integrante do escritório.
  3. Credibilidade. Usa a foto do advogado e dados verdadeiros da ação para parecer legítimo.
  4. A promessa. Avisa que o processo terminou e que há valor a receber.
  5. A cobrança. Para “liberar” o dinheiro, exige pagamento antecipado de guia, taxa, custa judicial inexistente, depósito ou transferência.

A página da própria OAB-ES com o formulário de denúncia do golpe descreve a mesma abordagem: o golpista se apresenta como assessor ou alguém ligado ao escritório, informa o sucesso da ação e pede pagamento de custos ou honorários para liberar valores.

A Migalhas enquadra a conduta, conforme o caso, como estelionato (art. 171 do Código Penal) e falsa identidade (art. 307). Esse enquadramento é informativo; a classificação de cada situação cabe à autoridade que investigar.

Por que o escritório também é vítima

É tentador tratar o golpe como problema do cliente desatento. Não é, por três motivos.

Primeiro, a identidade usada é a do advogado. Quem aparece na foto do perfil falso é o profissional. Quando o cliente descobre a fraude, a primeira pergunta dele é como o golpista sabia tanto sobre o caso.

Segundo, a confiança é o ativo do escritório. A conta ilustrativa mostra o tamanho do risco: imagine um escritório com 200 clientes ativos em ações com valor a receber. Basta que um deles pague uma taxa falsa para que os outros 199 passem a desconfiar de qualquer mensagem legítima sobre custas ou honorários. Os números são hipotéticos, mas a mecânica é real: cada fraude bem-sucedida torna mais cara a comunicação honesta.

Terceiro, o golpe se alimenta de um vazio de informação. O cliente que não sabe em que fase está o processo é o que mais acredita numa mensagem dizendo que ele terminou. Quanto menos o escritório fala, mais espaço o golpista tem.

Isso não significa que o escritório seja culpado de algo. Significa que a defesa mais eficaz está na rotina de comunicação, e ela é toda do escritório.

O que a OAB/ES orienta

A Migalhas registra orientações em dois blocos.

Para o cidadão, a prevenção:

  • desconfiar de mensagens sobre liberação de valores judiciais mediante pagamento antecipado;
  • não pagar taxas sem confirmar com o advogado;
  • falar com o advogado pelos contatos que já conhece;
  • não tratar foto, nome ou dados reais de processo como garantia de autenticidade;
  • não fornecer dados pessoais, bancários ou documentos a contatos desconhecidos;
  • na dúvida, procurar o advogado ou a unidade judicial onde o processo tramita.

Para quem foi vítima (cliente, ou advogado cuja identidade foi usada): registrar boletim de ocorrência, preservar mensagens e comprovantes e comunicar o caso à OAB pelo formulário da seccional.

Para os advogados: incluir, nos contratos de prestação de serviços, uma informação de caráter educativo sobre a existência do golpe, esclarecendo como devem ocorrer os contatos e as solicitações relacionadas aos processos.

A OAB/ES também relata medidas institucionais: um comitê com o TJ/ES, o Ministério Público estadual e a Polícia Civil; atuação junto ao CNJ para autenticação multifator no PJe; ofícios ao Banco Central e à Anatel; e ação civil pública contra operadoras de telefonia e a Meta. São frentes que dependem de terceiros. A que depende do escritório vem a seguir.

No âmbito nacional, a Coordenação Nacional de Fiscalização da OAB mantém um formulário de denúncia com a opção “Golpe do Falso Advogado” no campo de assunto. A própria página esclarece que denúncias que tratem unicamente da relação entre advogado e cliente devem ser formalizadas na seccional onde ocorreram os fatos, então confirme qual canal serve ao seu caso.

Um protocolo de seis passos para o escritório

Aqui está o ponto contraintuitivo: dizer ao cliente “desconfie de tudo” não funciona. Se toda mensagem for suspeita, o cliente ignora também as verdadeiras. O que funciona é dar a ele uma regra simples, que o golpista não consegue cumprir. Seis passos que qualquer escritório pode adotar:

1. Combine o canal oficial por escrito. Na contratação, informe o número de telefone, o e-mail e o nome de quem fala em nome do escritório. Uma mensagem de outro número é, por definição, não oficial.

2. Escreva no contrato a regra sobre cobrança. Em linha com a recomendação da OAB/ES, inclua uma cláusula informativa: o escritório não pede, por mensagem, depósito para “liberar” valores nem taxa para recebimento de crédito. Valores a pagar e a receber seguem o que está no contrato e nos documentos do processo. A redação exata é decisão do advogado responsável.

3. Avise antes que aconteça. Não espere o primeiro caso. Uma mensagem curta enviada a todos os clientes ativos, com o canal oficial e a regra de cobrança, vale mais que dez orientações dadas depois da fraude.

4. Mantenha o cliente informado com regularidade. O golpe explora o silêncio. Quem recebe uma atualização a cada fase do processo sabe que o caso não “terminou do nada”. Se o atendimento pelo WhatsApp ainda é informal no seu escritório, vale ler o artigo sobre WhatsApp para advogados.

5. Dê um jeito rápido de confirmar. O cliente precisa poder perguntar “isso é do escritório?” e receber resposta no mesmo dia. Defina quem atende essa pergunta e em quanto tempo.

6. Tenha um plano para o dia em que for usado. Quem for o responsável pela segurança do escritório deve saber de antemão o que fazer: orientar o cliente, registrar boletim de ocorrência, preservar prints e comprovantes e comunicar a OAB. Com o roteiro pronto, o primeiro contato do cliente com o escritório depois do golpe não vira improviso.

Nada disso exige tecnologia sofisticada. Exige disciplina de rotina, o mesmo tipo de disciplina que se aplica à gestão de prazos processuais.

Os dados do cliente também precisam de cuidado

A matéria da Migalhas não afirma como os golpistas obtêm os dados dos processos, e este artigo também não vai especular. Mas há uma consequência prática para qualquer escritório: informação de cliente e de processo que circula solta (planilhas em e-mails, prints em grupos, arquivos no celular pessoal) é informação mais difícil de proteger.

Algumas medidas de higiene que valem independentemente da origem do vazamento:

  • Acesso individual e com permissão por função. Cada pessoa da equipe entra com o próprio usuário e vê só o que precisa.
  • Atendimento pelo canal do escritório, não pelo celular pessoal. Quando o advogado muda de aparelho ou de número, o histórico não se perde nem fica solto.
  • Registro de quem enviou o quê e quando. Fica claro o que o escritório de fato comunicou ao cliente, e isso ajuda na hora de provar que uma mensagem não é sua.
  • Revisão de quem tem acesso a documentos de clientes, principalmente quando alguém sai da equipe.

Para o quadro geral, veja o guia de cibersegurança para escritórios de advocacia e o texto sobre LGPD no escritório. Para guardar prints e mensagens como prova, o artigo sobre provas digitais no processo explica os cuidados.

Como a organização do escritório ajuda

Um escritório com processos, contatos, tarefas e comunicações num único sistema tem uma vantagem simples contra esse golpe: sabe, a qualquer momento, o que já avisou a cada cliente. Num software jurídico como a Advoup, a ficha do cliente concentra os dados de contato e os processos vinculados, e a agenda e as tarefas ajudam a transformar “avisar o cliente em cada fase” em rotina, com responsável e data. A captura de intimações e o acompanhamento de andamentos alimentam esse fluxo: quando sai uma decisão, a equipe já sabe que precisa informar o cliente, pelo canal oficial.

A ferramenta não impede que um criminoso use o nome do advogado em outro aplicativo. O que ela faz é organizar a comunicação legítima, e comunicação legítima organizada é o que deixa a falsa mais fácil de reconhecer. Se quiser ver como isso fica na prática, conheça o software para advogados da Advoup.

Conclusão

O golpe do falso advogado funciona porque combina um dado verdadeiro com uma promessa tentadora e uma cobrança urgente. Contra isso, o escritório tem quatro defesas ao alcance: canal oficial combinado por escrito, cláusula informativa no contrato, aviso preventivo aos clientes e comunicação regular sobre o andamento. Se o pior acontecer, o caminho é o que a OAB/ES indica: boletim de ocorrência, provas guardadas e comunicação à Ordem.

Comece por uma ação pequena ainda esta semana: envie aos clientes ativos uma mensagem com o canal oficial do escritório e a regra de que nenhuma taxa é cobrada por mensagem. É o passo mais barato e o que mais custa ao golpista.

Perguntas frequentes

O que é o golpe do falso advogado? É a fraude em que o criminoso, por WhatsApp ou outro aplicativo, se passa por advogado ou integrante de escritório, informa que uma ação foi concluída e que há valor a receber, e exige pagamento antecipado de taxa, custa ou depósito para liberar o dinheiro. Segundo a OAB/ES, o golpe chama atenção por usar informações verdadeiras do processo.

Como o golpista sabe os dados do processo do meu cliente? A OAB/ES informa que os criminosos acessam dados de processos judiciais, identificam as partes e contatam as vítimas, às vezes usando fotos do advogado e informações reais sobre o andamento. Por isso, dado verdadeiro de processo não prova que a mensagem é legítima.

O advogado pode ser responsabilizado quando um golpista usa o nome dele? A matéria da Migalhas trata o advogado, nesses casos, como alguém cuja identidade foi usada indevidamente, e orienta registrar boletim de ocorrência, preservar as provas e comunicar a OAB. Qualquer análise de responsabilidade depende do caso concreto e deve ser feita por profissional habilitado.

O que fazer se um cliente recebeu uma mensagem suspeita em nome do escritório? Peça que ele não pague nem envie dados, guarde prints e comprovantes, confirme o contato pelo canal oficial do escritório e registre boletim de ocorrência. O advogado cuja identidade foi usada também deve comunicar a OAB da sua seccional.

Vale incluir um aviso sobre o golpe no contrato de honorários? A OAB/ES recomenda que os advogados incluam nos contratos de prestação de serviços uma informação de caráter educativo sobre a existência do golpe e sobre como devem ocorrer os contatos e solicitações relacionadas aos processos.

Como o escritório pode reduzir o risco de o cliente cair no golpe? Defina canais oficiais e avise o cliente por escrito, deixe claro que o escritório nunca cobra taxa judicial por mensagem, mande atualizações do processo com regularidade para que um contato fora do padrão chame atenção e mantenha um registro de cada comunicação enviada.

Fontes: Migalhas, “OAB/ES alerta sobre golpe do falso advogado e orienta população” (26/10/2026); OAB-ES, formulário de enfrentamento do golpe; Coordenação Nacional de Fiscalização da OAB.

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